quinta-feira, 15 de agosto de 2013

JESSE LIVERMORE (PARTE II)


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Um novo Livermore
Uma década atarefada
"Não há nada novo em Wall Street ..."


NEWSLETTER Nº520
14 de agosto 2013



JESSE LIVERMORE (PARTE II)

Tal como prometemos, com esta Newsletter iremos completar o relato da vida de Jesse Lauriston Livermore. Uma vida cheia de energia.

Mais do que a sua vida, esperamos conseguir transmitir-lhe o seu legado que ainda hoje, um século depois, se mantém atual.
Um novo Livermore
Em 1915, Livermore não aguentava mais estar fora de jogo e sabia que era o momento certo para reentrar na Bolsa e vencer. Depois de um longo período de abstinência, ganhou coragem, entrou no escritório de um antigo benfeitor e pediu novamente um empréstimo:

"Preciso de um empréstimo Charles."
"Quanto precisas?"
"Tu decides, não estou em posição de argumentar."
"Terás à tua disposição a partir de amanhã uma linha de 5.000 ações."-
propôs o amigo.

Consciente de que era pouco dinheiro, as suas decisões de investimento teriam que ser certeiras.
Ao analisar o mercado, escolheu comprar ações de uma empresa de aço: uma escolha óbvia já que o mundo se encontrava a meio de uma Grande Guerra.

Novamente utilizou a técnica de sondagem do mercado (investindo faseadamente) e ao fim de alguns dias, o preço da ação disparou de $98 para $145 perfazendo um lucro de aproximadamente $50.000.

A sua confiança estava novamente recuperada!
Os investimentos seguintes correram tão bem que um ano depois, J.L. já tinha juntado um capital de $500.000.
O passo seguinte foi pagar a todos os seus antigos credores, algo que tinha aprendido com o seu pai: um homem distingue-se pela sua honestidade.

O ano de 1917 foi especialmente feliz para Livermore, não só na esfera profissional mas também na sua vida pessoal. Através de um amigo – Flo Ziegfeld - dono de um clube noturno, conheceu Dorothea Wendt – Dorthy – a mulher com quem casaria e teria dois filhos.
"J.L., há uma pessoa que gostava que conhecesses. Uma rapariga que quando aparece ilumina a sala toda! Tens de a conhecer, tenho a certeza que ela também iluminará a tua vida."
"Muita diversão faz um homem pobre" -
respondeu Livermore.
"Então J.L., a vida são dois dias, não a desperdices"
Foi amor à primeira vista.

A dançarina baixinha e com uns lindos olhos verdes, tinha arrebatado o coração de Livermore. A partir daí, J.L. passou a ir todas as noites ver o seu espetáculo e a jantar com ela sempre que podia, enchendo-a de jóias e presentes. Casaram-se a 2 de Dezembro de 1918, ela com 18 anos e ele com 40 e Dorthy seria para sempre a alegria da vida de J.L.

Livermore queria dar à sua mulher, tudo o que ela merecia e mais. Depois do casamento, foram viver para uma casa luxuosa no centro de Nova Iorque, mobilada com o melhor que poderia existir: tapetes persas, quadros de pintores famosos nas paredes, lençóis de algodão egípcio, almofadas com penas de ganso …. Nada era demais para Dorthy.
Na área dos negócios, J.L. fez nessa altura mais uma descoberta importante para os seus investimentos:
As empresas de uma indústria seguem sempre a tendência da indústria, nomeadamente as empresas líderes. Por exemplo, se a indústria automóvel está a crescer porque a procura de automóveis está a aumentar, de certeza que empresas como a Ford ou a Chrysler irão observar uma subida no preço das suas ações.
Desta primeira, Livermore deduziria uma segunda regra:
Se uma ação não se está a comportar de acordo com o movimento da indústria é melhor ter cuidado! Esta situação muito provavelmente significa que existem problemas com a empresa.
Em resumo, um investidor deverá ser muito cauteloso nos investimentos que faz e não investir sem pensar ou apenas com base numa tendência. Livermore passou a focar-se em poucas indústrias e a analisar apenas os seus líderes. Afinal, se poderia fazer dinheiro com os mais poderosos de cada setor para quê investir nos segundos?
Em 1919 nasceu o seu primeiro filho – Jesse Jr.

Depois do bebé nascer mudaram-se para uma zona mais calma, fora de Nova Iorque, mas nem por isso para uma casa menos sumptuosa.

Livermore conseguiu novamente impressionar a sua mulher comprando uma casa com 29 quartos e 12 casas de banho, uma sala com uma mesa de jantar onde podiam sentar-se 42 pessoas, barbearia, sala de jogos, e até uma cervejeira uma vez que Dorthy havia descoberto que um dos empregados sabia fazer cerveja e por isso decidiu criar a sua própria marca. A nova casa de J.L. era invejada pelos melhores hotéis dos Estados Unidos.

Dorthy era o oposto de Livermore, se ele era reservado, ela era expansiva; se ele era taciturno, ela irradiava alegria e quando ele se sentia perdido era sempre nela que encontrava a solução.
Nesta casa davam festas todas as semanas e os convidados vinham das mais variadas áreas da sociedade americana: desde o cinema (Charles Chaplin era presença habitual) até à ópera (Madam Schumann-Heink), da música clássica até aos grandes empresários americanos. Foi nestas festas que J.L. acabou por conhecer muita gente influente como Alfred Sloan, CEO da General Motors ou Walter Percy Chrysler fundador da Chrysler Corporations.
Uma década atarefada
Em 1923, quando nasceu o seu segundo filho – Paul – Livermore abriu um novo escritório na 5ª Avenida longe da euforia de Wall Street. Nesse escritório, uma das paredes era toda coberta de ardósia, onde quatro ou mais rapazes ("chalkboard boys" como ele tinha sido aos 14 anos) atualizavam ao minuto os preços das ações.

Estes rapazes estavam proibidos de falar enquanto atualizavam o quadro e estavam ligados diretamente aos telefonistas de Wall Street o que fazia com que soubessem os preços cerca de 15 minutos antes da maioria das pessoas. J.L. já tinha aprendido a importância de ter informação sempre atualizada!

Os rapazes colocavam ao lado dos preços um conjunto de códigos que ajudavam J.L. a compreender as tendências do mercado. J.L. nunca explicaria estes códigos a ninguém e os próprios chalkboard boys estavam proibidos de os descodificar a quem quer que fosse. Um dia, Livermore comentaria com o seu filho Paul:
"Vês filho, aqueles símbolos no quadro são tão claros para mim como as notas de uma pauta são claras para um maestro. O quadro e aqueles rapazes estão a tocar uma sinfonia e tudo faz sentido para mim. "
Os anos foram passando e Livermore continuou a ganhar dinheiro com os seus investimentos, o que, a par de alguns escândalos na sua vida pessoal, faziam dele uma das figuras públicas mais comentadas pelos jornais e revistas de sociedade.
Apesar de continuar a investir de acordo com a tendência de crescimento do mercado, no final de 1928 Livermore começou a suspeitar que o mercado estava a atingir o seu máximo. As suas ferramentas de análise técnica começavam a mostrar alguma resistência e J.L. perguntava-se se estaria iminente apenas uma correção do mercado ou se estes poderiam ser os primeiros sinais de inversão.

Os seus instintos não podiam estar errados: por alguma razão o New York Times lhe chamava "The Great Bear of Wall Street". De facto, como em 1907, os sinais eram mais que evidentes:

  • As grandes empresas (líderes de indústria) não conseguiam aumentar o preço das suas ações;

  • Os melhores investidores começavam a libertar-se das suas posições vendendo-as a pequenos investidores que nada percebiam de mercados

  • Toda a gente investia! Barbeiros a engraxadores, donas de casa e agricultores, todos negociavam em bolsa aliciados pela utopia do dinheiro fácil e garantido
No ínicio de 1929, Livermore começou a abrir pequenas posições curtas para testar o mercado. Infelizmente entrou demasiado cedo, com o mercado ainda a subir e este erro de timing custou-lhe $250.000.

Porém, o seu quadro de ardósia não lhe mentia e por isso não desistiu. Pela segunda vez entrou curto no mercado e este reagiu novamente contra ele; J.L. teve de fechar novamente as posições.

No verão de 1929, pela terceira vez, repetiu a estratégia de teste ao mercado e, desta vez, já obteve lucro: não foram grandes lucros mas mostraram que a sua intuição (que ele dizia não ser intuição mas a experiência de vários anos na bolsa) estava correta. Era o momento para shortar(1) o mercado em grande!

No dia 24 de Outubro de 1929 – a famosa quinta-feira negra – várias ações entraram em queda livre sem qualquer rede que as amparasse: General Electric, Chrysler, International Telephone and Telegraph, AT&T, US Steel, etc.
Ao meio dia, mais de $8 milhões de ações já tinham sido vendidas e $15 mil milhões tinham-se perdido, fazendo desaparecer as poupanças de grande parte dos cidadãos americanos: empresários faliram numa questão de horas, especuladores arruinados suicidaram-se das mais variadas formas (atirando-se de janelas de hotéis, bebendo veneno ou simplesmente apontando uma arma à cabeça) e um pouco por toda a América, o cenário era de verdadeiro cataclismo.
Os homens mais poderosos do país, entre eles o presidente Hoover, Andrew W. Mellon, secretário do Tesouro, e os líderes da banca como J.P. Morgan Jr. juntaram-se para tentar, sem sucesso, travar o caos.
Ao contrário de todos, Livermore não parava de lucrar: no final desse ano a sua fortuna valia cerca de $100.000.000, o equivalente a mais de 1 bilião de dólares nos dias de hoje. Foi acusado de, em parte, ter provocado aquela crise pois começara a investir contra o mercado algum tempo antes e os ataques pessoais e à sua família, por carta ou por telefone, foram constantes nas semanas seguintes.
O crash de 1929 solidificou muitas das convicções de Livermore. Uma delas, bastante valiosa foi o timming do mercado: Afinal é tão importante saber se o mercado irá inverter como saber quando irá inverter.
Livermore foi dos primeiros investidores a desenvolver e utilizar ferramentas de análise técnica.
Para definir o momento de viragem do mercado, J.L. utilizou uma estatística que mais tarde explicaria aos seus filhos: os pontos pivot, que ainda hoje são muito utilizados para definir a tendência do mercado.

O ponto pivot não é mais do que a média aritmética entre o preço máximo, o preço mínimo e o preço de fecho de um ativo.

Se o mercado estiver numa tendência crescente, no dia seguinte o ativo deverá negociar acima deste ponto; pelo contrário, se o mercado estiver em recessão, o ativo estará a negociar abaixo do ponto pivot do dia anterior.
Os pontos pivot não devem ser utilizados isoladamente: uma boa análise deve conjugar várias outras ferramentas e medidas como suportes e resistências.

No seu livro How to Trade Stocks publicado em 1940, Livermore escreveu bastante sobre este tema:

 "Os Pontos Pivot são a medida necessária para negociar e vencer. Um investidor tem de ser paciente, porque leva tempo até que um ativo percorra o seu caminho lógico e natural. (...) Eu ganhei sempre dinheiro quando fui paciente e negociei nos pontos Pivot. "
"Não há nada novo em Wall Street ..."
Os anos 30 chegaram para Livermore cheios de esperança, mas rapidamente mostraram a sua decadência; não tanto nos investimentos mas na sua vida pessoal: Dorthy debatia-se com um grave problema de alcoolismo e o seu filho mais velho, Jesse Jr., agora um adolescente, ia pelo mesmo caminho.

J.L., passava cada vez mais tempo fora de casa e começara a frequentar clubes noturnos e a sair com raparigas mais novas o que o conduziu vertiginosamente para um divórcio escandaloso, em Setembro de 1932, ao fim de 14 anos de casamento.

Livermore conheceu entretanto aquela que viria a ser a sua última mulher: Harriet Metz Noble, dona de uma considerável fortuna e bastante mais nova do que ele. Casaram-se em 1933.
Contudo, os escândalos continuaram a fustigar a família: as discussões entre a ex-mulher, que ficara com a guarda dos filhos e, Jesse Jr., eram cada vez mais graves a ponto de no dia de Acção de Graças de 1935 Dorthy (sob o efeito do álcool) ter alvejado o filho a poucos milímetros do coração levando-o quase à morte.
Livermore já não sentia a mesma energia, perspicácia ou vontade de investir e todos estes acontecimentos, a par de alguns problemas financeiros bem como do fracasso do seu livro após o lançamento, submergiram o "The Great Bear of Wall Street" numa depressão profunda.

Na noite de 27 de novembro de 1940 Livermore e Harriet saíram para jantar no seu clube favorito – Stork Club. Um fotógrafo perguntou se podia fotografá-los e J.L. respondeu:

"Claro que sim. Porém esta será a última fotografia que me tira porque amanhã partirei para uma longa viagem."

A sua mulher ficou surpresa e perguntou-lhe o que é que ele queria dizer com aquilo ao que J.L. respondeu, sorrindo:

"Querida, é apenas uma piada."

No dia seguinte almoçou sozinho como já era habitual, no Sherry Netherland Hotel, no número 745 da 5ª Avenida.
Durante o almoço escrevia apressadamente no seu bloco de notas como se quisesse dizer muita coisa mas tivesse pouco tempo.

A meio da tarde, depois de ter ido ao escritório, voltou ao hotel para uma bebida. Bebeu o seu cocktail, dirigiu-se ao lobby do bar como se estivesse a encaminhar-se para a casa de banho, entrou no bengaleiro, e com a sua pistola suicidou-se com um tiro na cabeça.

Deixou apenas uma nota para a sua mulher que nunca foi revelada.
Em Fevereiro de 1941, a declaração de bens de Livermore demonstrava $10.000 em propriedades e cerca de $360.000 em dívidas.
Jesse Lauriston Livermore escreveu a história da sua vida pelas suas próprias mãos, um verdadeiro "self-made-man", o símbolo do "american dream" que ainda hoje faz sonhar tantos e tantos homens por todo o mundo.

Mais do que a sua vida, do que a sucessão das suas ascensões e declínios, Livermore deixou um legado que ainda hoje, um século depois, se mantém atual:

"Não há nada novo em Wall Street ou na especulação. O que aconteceu no passado irá acontecer novamente no futuro. Isto acontece porque a natureza humana não muda e são exatamente as emoções que se metem no caminho da inteligência" - Jesse Livermore
"Desde sempre, as pessoas têm vindo a investir da mesma forma nos mercados como consequência da sua ganância, medo, ignorância e esperança. Esta é a razão pela qual os padrões se repetem de forma constante nos mercados"- How to Trade in Stocks, Jesse Livermore, 1940.
(1) Shortar vem do verbo short que em inglês significa abrir posições curtas no mercado. Quando um investidor investe curto, pede emprestadas ações para devolver mais tarde a um menor preço. Neste caso, o investidor terá ganhos se o preço do ativo diminuir. É exatamente o contrário de investir longo onde o ganho advém da subida do preço do ativo.
Na elaboração desta Newsletter foram consultadas as seguintes obras:"Jesse Livermore: The World's Greatest Stock Trader by Richard Smitten" e "How To Trade In Stocks by Jesse Livermore". A informação aqui disponibilizada tem caráter meramente informativo e particular, sendo apresentada como mera ferramenta auxiliar, não devendo, nem podendo, desencadear ou justificar qualquer ação ou omissão, nem sustentar qualquer operação, nem ainda substituir qualquer julgamento próprio dos seus destinatários, sendo estes, por isso, inteiramente responsáveis pelos atos e omissões que pratiquem. Assim, e apesar de considerar que o conjunto de informações apresentadas foi obtido junto de fontes consideradas fiáveis, nada obsta que aquelas possam, a qualquer momento e sem aviso prévio, ser alteradas. Os investidores devem considerar esta informação como mais um instrumento no processo de tomada de decisão de investimento. O Banco ACTIVOBANK, S.A. rejeita, assim, a responsabilidade por quaisquer eventuais danos ou prejuízos resultantes, direta ou indiretamente da utilização da informação apresentada, independentemente da forma ou natureza que possam vir a revestir. A reprodução total ou parcial desta informação não é permitida sem autorização prévia.

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