quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Destruição do BCP (Quem terá escrito isto?)

 

A DESTRUIÇÃO DO BCP

UM CRIME QUE NÃO PRESCREVE

 

O maior banco privado português foi dificilmente construído em 20 anos (1986/2005), rapidamente destruído em 20 dias (2 a 22 de Dezembro de 2007) e severamente arruinado em 3 anos (2008/10).

 

1985/1995 - Acto I

 

Logo na primeira década de vida, o BCP foi vítima de uma tentativa de destruição (1987) e de outra, mais séria, de assalto organizado (1992/93).

No primeiro caso, a empresa Moniz da Maia, Serra & Fortunato, detentora de 10% do capital do BCP, intentou uma acção judicial contra o Banco, por discordar da distribuição de resultados aos trabalhadores, e movimentou-se para afastar a administração. A tentativa foi contrariada pelo outro grande accionista, o Grupo Amorim, igualmente com 10%. Mas "o crime" compensou, a MMS&F saiu do BCP embolsando cerca de 7 milhões de contos (55.000 acções x 140 contos/preço médio por acção vendida). Tinha investido 550.000 contos (350.000 em 1985, mais 200.000 em 1986) e em 2 anos multiplicou por 14 o capital investido. Um recorde absoluto de taxa de rentabilidade, no investimento em acções BCP.

No segundo caso, o Grupo Amorim, então com 18% do capital do Banco, e o Banque Indossouez, seu credor e aliado, tentaram controlar o BCP, com o apoio de outros accionistas membros da Comissão Delegada da Assembleia Geral. A tentativa foi anulada e Amorim saiu do BCP para fundar o BNC, tornando-se, mais tarde, o maior accionista individual do Banco Popular Espanhol. A vida não lhe correu mal, "o crime" voltou a compensar.

Os crimes compensaram, mas, na memória das pessoas, não prescreveram. Não há nada que os possa apagar. Não há nada que os possa limpar do curriculum dos empresários. É que o sucesso empresarial, o dinheiro, o lugar cativo na revista Forbes, não têm o poder de reescrever a história. Biografias encomendadas podem destruir as fotografias incómodas e retocar as que interessam mais, retirando personagens incómodas, ou integrando outras que possam fazer melhor companhia. Mas há quem conserve a memória para denunciar o embuste.

 

1995/2005 – Acto II

 

Foi o período das aquisições.

Logo em 1995, o BCP adquiriu o BPA, então com maior quota de mercado e mais trabalhadores que o próprio BCP. Com o peso que já tinha no interior do BCP – cerca de 700 quadros superiores e intermédios entretanto admitidos – e o "reforço" dos 5.500 que chegavam com a OPA, a "cultura BPA" tentou dominar o BCP. O "reverse take over" ensaiado não resultou.

Depois, no ano 2000, o BCP adquiriu o BPSM e o Banco Mello. O Grupo Mello ocupou uma cadeira no Conselho Superior e outra no Conselho de Administração, os ex-administradores do Banco Mello ocuparam funções em órgãos de administração de empresas subsidiárias (p. e. BCP Investimentos) e os Directores, apressadamente graduados nos dias que precederam a integração, foram catapultados para a Alta Direcção do BCP. Ganharam em dois momentos: na saída do Banco Mello e na entrada no BCP. Ficaram conhecidos como "melionários".

O grupo de novos quadros superiores era pequeno mas muito activo e esteve, sempre, em ligação com os antigos patrões, convertendo-se num "banco dentro do BCP". Quando a estratégia de "domínio por dentro" se tornou mais visível, o Eng. Jardim Gonçalves antecipou-se e designou, de modo inesperado, Paulo Teixeira Pinto para presidente do CA. A nova tentativa de domínio fora anulada. Mas só transitoriamente…

 

2005/2007 – Acto III

 

O Acto III tem lugar no consulado de Paulo Teixeira Pinto e teve como ponto de partida a alteração estatutária de 2006, que consagrou o modelo dualista, convertendo o BCP num estranho "reino com duas Cortes".

Um confronto – totalmente inesperado e absolutamente gratuito – entre membros do CGS e o presidente do CAE, abriu espaço para a divisão entre accionistas. Para se proteger, Paulo Teixeira Pinto começou a agregar um conjunto de accionistas, membros e não membros do Conselho Superior e do Conselho Geral de Supervisão, que preparam, silenciosa e programadamente, o desgaste dos órgãos dirigentes do Banco, com vista ao seu afastamento.

Com bons apoios na área política e na comunicação social – Sic Notícias/Mário Crespo, Diário Económico/Martin Avilez de Figueiredo e uma agência de comunicação privativa, Unimagem/Maria Lacerda – os "activistas" aliaram-se a figuras proeminentes do Partido Socialista e a membros do Governo, com destaque para o Primeiro-Ministro e o Ministro da Economia, beneficiando do apoio discreto, e secreto, do presidente do Banco Espírito Santo e de um dos seus "agentes", Marcelo Rebelo de Sousa.

A partir da Assembleia-Geral de 28 de Maio de 2007, Joe Berardo, passou a ser a face visível da "insurreição". Primeiro, com a encenação do V da vitória à saída do Palácio da Bolsa – imagem emblemática que marca o início do processo de acelerada destruição do BCP – depois, com o lugar cativo de que beneficiou nas televisões e jornais, para desferir os violentos ataques contra o Banco e os seus dirigentes. A partir de 2005, o Comendador começara a construir uma posição no capital do BCP, que, em 2007, já atingia 3,88%.

É neste contexto que surge a primeira investida para a tomada de poder no BCP. Por iniciativa de Joe Berardo, os "activistas" apresentaram, na Assembleia Geral de 6 de Agosto de 2007, uma proposta de destituição de 5 administradores e outra para a eleição de novos corpos sociais. Como era natural, nas listas candidatas aos órgãos sociais tinham lugar os accionistas e administradores dissidentes, os directores aliados e um grupo de "independentes" avençados. Menos compreensível era que as listas integrassem um "comando" composto por 4 "agentes" do BES.

Não tendo resultado a tentativa – e tendo Teixeira Pinto renunciado ao cargo de presidente do Conselho de Administração Executivo, em 31 de Agosto – os "activistas" endureceram a estratégia de desgaste dos órgãos sociais do BCP, que só poupou os aliados. Principais visados: presidente e vice-presidentes do Conselho Superior e do Conselho Geral de Supervisão, presidente da Mesa da Assembleia-Geral, presidente da Comissão de Auditoria e Risco, e os membros "não alinhados" do Conselho de Administração Executivo.

A pressão dos ataques desferidos através da comunicação social aumentava semana a semana e o Conselho de Administração Executivo era bombardeado com sucessivas cartas dos activistas, a exigir a prestação de informação reservada e a ameaçar com processos judiciais, caso as exigências não fossem satisfeitas. Ameaças que eram actos objectivos de chantagem: "se me derem a informação, eu calo-me, põe-se uma pedra sobre o assunto, volta-se a página e o banco segue em frente. Se não, as cartas (de denúncia das supostas irregularidades) já estão preparadas…" (sic!).

 

Dezembro de 2007 - Acto IV

 

A propósito da luta pelo controlo da PT, pela Telefónica, o Comendador Joe Berardo, importante accionista da PT, declarou certeiramente: "Não se pode ter o inimigo dentro de casa" (Diário Económico de 28.5.10, página 28 – Anexa). Joe Berardo foi a face mais visível dos activistas no BCP e sabe do que fala!

Os que, em Dezembro de 2007, desferiram o golpe fatal no BCP, também sabiam do que falavam, e falavam muito. Sobretudo, intrigavam muito. Saberiam o que estavam a fazer? Talvez não. Pelo menos em toda a extensão da devastação que acabariam por provocar. Com a colaboração do "poder", os activistas atingiram os seus adversários directos, como pretendiam, mas, da cegueira do ataque, resultaram "efeitos colaterais" devastadores para o Banco que pretendiam conquistar e, ironicamente, para o seu próprio património.

Só assim se entende que – não tendo tido êxito nas pressões exercidas para obter a informação reservada – os activistas tenham recorrido à "bomba atómica": avançaram com as denúncias no Banco de Portugal, CMVM e Procuradoria-Geral da Republica, com o objectivo, imediato e primacial, de substituir os dirigentes do BCP. Talvez tivessem pretendido, apenas, substituir os órgãos sociais, mas acabaram por abrir uma crise que abalou os fundamentos de toda a instituição, cavando uma onda de destruição que ameaça "não deixar pedra sobre pedra" no Banco e na sua base accionista.

Para atingir esse primeiro objectivo, decisivo para o sucesso dos passos seguintes, precisavam do apoio do "poder"… e a verdade é que o tiveram! Na verdade, logo em 20 de Dezembro de 2007, o Governador do Banco de Portugal chamou o presidente e o vice-presidente do BCP para os informar que não deveriam manter-se como candidatos à eleição, na Assembleia-Geral convocada para 15 de Janeiro de 2008. Com esse acto, condenou-os, sem processo, a uma "inibição de facto". Mas, no dia seguinte, o Governador fez ainda pior: patrocinou uma insólita reunião de apoio aos "activistas" para lhes dar "o sinal" (a luz verde) que tinham expressamente solicitado para avançarem. Os novos aliados tinham exigido "um sinal do governo" para "descobrirem o rosto" e para avançarem sobre o BCP. E o Governo deu-lhes "o sinal", através do Banco de Portugal.

O Governador aceitou ser o instrumento para dar "o sinal" exigido, fazendo de operador que premiu o interruptor para acender a luz verde para o assalto que estava a ser perpetrado. O Governador sabia do assalto e aceitou ser cúmplice activo. E foi o encorajamento das autoridades que animou o presidente executivo da EDP a convidar os activistas para nova reunião, agora nas instalações da própria EDP (Sábado, 22 de Dezembro), para ultimarem o plano de tomada do BCP. António Mexia sabia que, com essa iniciativa, estava a dar execução à vontade do "poder" e não iria perder uma oportunidade soberana de "mostrar serviço".

Para culminar a obra, em 26 de Dezembro, o Governador ordenou a instauração de um processo de contra-ordenação (Processo 24/07/CO), contra o próprio BCP, o presidente do Conselho Geral e de Supervisão, sete administradores e dois directores, enquanto sentenciava, publicamente, que, no Banco, "existiam fraudes, existia culpa, existiam culpados e o Banco de Portugal iria aplicar punições exemplares".

Declarações semelhantes foram produzidas, em simultâneo, pelo presidente da CMVM e pelo Ministro das Finanças, igualmente cúmplices activos na operação de assalto ao BCP. Foram actuações concertadas, desencadeadas em momento escolhido, para darem o suporte institucional à apresentação da "lista de coligação", para o Conselho de Administração Executivo do BCP – a lista dos activistas e dos seus aliados: Governo, Partido Socialista, Caixa Geral de Depósitos e Banco Espírito Santo – que foi eleita na A. G. de 15 de Janeiro de 2008, com 99% dos votos dos accionistas.

Um resultado que se deveu, em muito, à desastrada actuação do Governador do Banco de Portugal. Por aquilo que fez, e foi muito! Mas, também, pelas reacções que induziu, que foram mais abrangentes.

Ao ditar uma condenação precipitada, o Governador influenciou accionistas, jornalistas, a opinião especializada e a opinião pública em geral, com uma versão dos acontecimentos deliberadamente distorcida, truncada e deturpada. Tudo para sacudir culpas próprias – a apontada actuação negligente da supervisão – e para aparentar uma capacidade de decisão, que tinha estado ausente até então, e uma autoridade, que não se vira antes e não se viu depois. Não fora essa má influência, e teria sido diferente a marcha dos acontecimentos.

 

2008 – Acto V

 

A estratégia dos activistas e seus aliados, desenvolvida a partir da Primavera de 2006, fora, enfim, coroada de êxito. O BCP ficou cativo dos interesses do poder. Dito de outro modo, da influência política e dos circuitos dos grandes negócios – públicos e afins – com passagem obrigatória (e conhecida) pelos quatro parceiros da coligação. Para efeitos práticos, o BCP ficou governamentalizado. Mais grave, foi intencionalmente politizado, acabando por se converter – de modo surpreendente rápido – na "central de informações e de influências" que o recolocou nas primeiras páginas dos jornais, pelas piores razões.

O BCP fora, afinal, vítima do seu sucesso, da sua dimensão e da sua independência. Era "um centro económico" demasiado grande para permanecer independente. E era demasiado independente para continuar fora do círculo das influências do poder político e do seu aliado privilegiado, o poder económico informal.

Acontece que os activistas cometeram um erro indesculpável, para quem tanto investira, política e financeiramente: viram na conquista do objectivo um ponto de chegada e com isso se contentaram. Satisfizeram a vaidade, saciaram a sede de poder, sentaram-se à sombra da glória conquistada e, mais importante, ficaram à espreita das oportunidades para retirarem vantagens particulares, à custa do poder conquistado. Não é essa a forma de governar um grande banco. E isso nunca tinha acontecido no BCP, mesmo nas épocas em que o BCP teve accionistas claramente dominantes.

Diga-se a verdade, os activistas deixaram de poder contar com os aliados. A mesma comunicação social que os ajudou no assalto apressou-se a denunciar a promiscuidade que estava patente na coligação. Tudo o que é demais… ofende! Ao mesmo tempo, a opinião pública despertou para a "nacionalização" do maior banco privado português e os deputados questionaram a actuação das autoridades, que tinham atraiçoado de forma evidente os deveres de isenção, neutralidade e imparcialidade.

Primeiro, na Comissão de Orçamento e Finanças e, depois, na Comissão Parlamentar de Inquérito, ficou evidente a ingerência do Governo e das autoridades de supervisão, na vida interna de uma empresa privada. Tal como ficou a descoberto o "pecado" da cumplicidade com uma facção dos accionistas. Sujeitos a um escrutínio público, até aí inexistente, as autoridades temeram avançar com novas iniciativas e os bancos aliados seguiram, prudentemente, o exemplo.

De repente, tudo mudava. Sem cúmplices e aliados, os activistas ficaram entregues a si próprios. Sem capacidade de iniciativa e sem competência própria, não sabiam como agir e… perderam o Norte. Entregues a si próprios, pecaram por incompreensível inabilidade: conquistaram "a praça" e não a ocuparam. Não a souberam gerir!

Talvez por que fossem muitos, e muito ambiciosos, não se entenderam quanto à escolha do líder: não foi o mais forte, nem o mais influente, nem o mais manobrador, nem o que falava mais alto. Porque eram pessoas que vinham de muitas paragens, porque não investiram dinheiro seu, ou porque investiram dinheiro que não era seu, ocuparam as cadeiras do poder mas não souberam o que fazer com elas.

Os novos senhores deixaram o Banco entregue à sua sorte e "a nau" ficou à deriva. Pior, desprezaram, maltrataram (e continuam a maltratar) o "seu Banco". Maltratam por omissão, porque se limitam a deixar correr.

O resultado é singular: o BCP ficou com uma "confederação de donos", mas sem nenhum interesse específico a uni-los e sem nenhum "cimento" a ligá-los. Mais grave, com razões fundas para desconfiarem uns dos outros. "Quem traiu uma vez…". Para o que importa, o BCP ficou sem dono, sem rosto, sem voz e sem rumo.

A Assembleia-Geral de Maio de 2008 aprovou as contas de 2007 e elegeu o novo Conselho Geral e de Supervisão e o Conselho de Remunerações e Previdência. Elegeu quem não devia! Elegeu desconhecidos (avençados) e elegeu quem, por acção ou omissão, tinha provocado a onda de destruição que estava já a devastar a instituição. O BCP ficou anónimo e impessoal, mas também ficou com rostos que comprometem a confiança e a reputação. Rostos que prejudicam e impedem um bom desempenho comercial.

Estranhamente, a situação de evidente "orfandade" do maior banco privado do país – o maior banco privado (?) completamente à deriva – parece não incomodar as autoridades. As mesmas autoridades que se mostraram tão lestas a agir quando não deviam e a fazer o que não podiam ter feito. 

  

2009 – Acto VI

 

Em 2009 a destruição acentuou-se. Guerras privadas, alimentadas por accionistas influentes, minaram o prestígio dos novos órgãos de administração, prisioneiros de uma política de "pretender agradar a todos e a todos contentar". O tempo e as energias, necessárias à administração do Banco, foram desperdiçados na missão impossível de "conciliar interesses inconciliáveis" e a actuação errática, ditada pelas circunstâncias do momento, inviabilizou a execução de uma estratégia de negócio consequente, a afirmação da confiança no mercado e a consolidação da autoridade interna.

O descomando e as contradições foram evidentes para o exterior. E foram visíveis para os concorrentes, que não perderam tempo a tirar proveito das fragilidades de um "player" que, no passado, se afirmara como o mais inovador, o mais dinâmico e o mais activo. As consequências foram a perda da confiança e do prestígio do Banco e a quebra na motivação dos agentes comerciais, que, fatalmente, apressaram quedas na quota de mercado, nos proveitos, nos lucros e na cotação das acções.  

Entre 31 de Dezembro de 2007 e 31 de Dezembro de 2009, o BCP perdeu mais de 60% do seu valor em bolsa. Terá sido por causa da crise, mas a crise não explica tudo. As acções do BCP valem muito mais que os 60 ou 70 cêntimos (o preço de uma bica…) a que estão a cotar. Valem mais do dobro!

O modelo de negócio do BCP continua válido, os mercados onde está são promissores e os trabalhadores não desaprenderam. Mas precisam saber quem são e o que pensam os donos do Banco. O "fair-value" do BCP já não será os mais de 10.000 milhões de euros – que atingiu no ano de 2000 e repetiu em 2006 e 2007 –, mas não será os 4.000 milhões em que penosamente se vem arrastando, depois de ter sido "torpedeado" pelos seus próprios accionistas e, pasme-se, pelas autoridades.

Se perguntarmos ao pequeno accionista, ao cidadão comum que lê jornais, quem destruiu o BCP, a resposta mais provável será: os accionistas que o atacaram (e continuam a atacar) e as autoridades que apadrinharam a destruição.

Quando os pequenos accionistas quiserem acusar quem prejudicou os seus interesses, destruindo pelo menos 30% do valor do Banco (deixemos à crise os outros 30%), terão de apontar o dedo aos accionistas litigantes, ao Banco de Portugal e à CMVM. Foram eles que destruíram. São eles que continuam a destruir.

É que o mercado não está desatento e os grandes investidores informam-se bem. Nenhum deles investirá numa empresa que arrasta o enorme caudal de litígios, pendências e contingências, como aquele que está a fazer dobrar o BCP e a empobrecer os accionistas.

É, de resto, essa a firme convicção de uma das figuras proeminentes do grupo de activistas que, em acção judicial intentada contra cinco ex-administradores do BCP, afirma peremptoriamente: "as acções em que o BCP se vê envolvido podem causar danos de imagem e acarretar custos significativos. O Banco pode ser alvo de litígios, em Portugal ou qualquer outro lugar, por parte de accionistas ou por parte de terceiros, litígios que, se decididos em desfavor do Banco, podem originar perdas significativas para o Banco e fazer baixar os ratings do mesmo. Quaisquer destes procedimentos regulatórios e litígios podem resultar em publicidade ou percepções negativas relativamente à actividade desenvolvida pelo banco, podendo originar perdas de clientes e aumento do custo de financiamento e, bem assim, desviar a atenção da equipa de gestão corrente da actividade do Banco". O Comendador, repete-se, sabe do que fala!

Na verdade, sem procura sustentada, não há força que puxe pelo preço das acções… a não ser para baixo. E, sem lucros, também não haverá dividendos, nem valorização das acções, que justifique o investimento. Não haverá novos accionistas. E, é fatal, não poderá haver complementos de pensões, nem incentivos salariais, nem motivação, nem empenho dos trabalhadores.

Os novos donos do BCP estão a esquecer um princípio clássico da gestão: que as empresas do futuro se fazem com os homens, e as mulheres, de hoje. Penalizando, como estão a penalizar, os accionistas e os trabalhadores de hoje, qual é o tipo de banco que pretendem preparar para o futuro? Um banco abandonado pelos accionistas? Um banco sem entusiasmo e sem garra, servido por dez mil trabalhadores desmotivados? Um banco com operações dispersas pelo mundo, mas sem comando central? Um banco à deriva?       

Em 2006, o BCP obteve os maiores lucros da sua história: 780 milhões de euros. Distribuiu mais de 300 pelos accionistas, 60 pelos trabalhadores e 30 aos administradores. Há quem considere que foi muito. São os que preferem que os lucros sejam de 250 milhões, com distribuição de pouco mais de 100 aos accionistas, ZERO aos trabalhadores e ZERO aos administradores. É mais "igualitário"? Nem isso! E melhor não é certamente.

Dir-se-á que eram outros os tempos. Foram tempos em que os resultados económicos permitiram que – de forma pioneira – o BCP tivesse podido consagrar, estatutariamente, a distribuição de resultados pelos colaboradores (1987), a criação de um plano complementar de reformas (1993) e de um seguro de saúde (1994), com cobertura internacional, que salvou dezenas de vidas de colaboradores e familiares. Benefícios que, infelizmente, têm vindo a ser severamente restringidos ou, mesmo, suspensos.

 

2010 – Acto VII

 

2010 é o último ano do mandato dos actuais órgãos de administração e fiscalização. Por culpas próprias e por razões externas, o triénio foi pobre, para dizer o mínimo. O mercado classifica-o como tal e os accionistas não estarão distraídos na hora de pedir contas.

Mas não se caia na tentação de atribuir as culpas ao passado, ou a terceiros. O argumento pode ser conveniente, mas não é verdadeiro. Imputar as culpas ao passado (aos outros…) é a arma daqueles que recusam assumir as culpas próprias. Nem se aponte o dedo a "problemas do passado", porque ficaram (todos) resolvidos, logo em 2006, sem afectar a cotação das acções. Muito menos se invoquem "perdas do passado", porque foram (integralmente) recuperadas, sem terem afectado os lucros do Banco. Que não haja equívocos, quem não consegue bons resultados em 2010 – como não conseguiu nos dois anos anteriores – só pode ser quem está a administrar (ou a não administrar…) no ano de 2010, não é, seguramente, quem saiu em Janeiro de 2008.

Sem a gula dos activistas, sem a ânsia controleira dos governantes, sem a criminosa solidariedade das autoridades e sem o calculismo dos concorrentes, o BCP seria, hoje, um banco em "estado normal", com actividade normal, sem pesos do passado, sem crises do presente e com as acções a cotarem pelo menos o dobro do preço actual.

Se há alguém a responsabilizar, responsabilize-se, em primeiro lugar, quem metralhou o banco e lhe destruiu a reputação. Mas culpe-se, por igual, os autores, os cúmplices e os padrinhos da destruição. Culpe-se quem lançou a "bomba atómica", quem ajudou na destruição e quem tinha a obrigação de defender o maior banco privado nacional, mas preferiu fragilizá-lo. Culpe-se, igualmente, quem criou as condições para que o maior banco cotado esteja, hoje, exposto à gula dos predadores que estão a desferir sucessivos e impiedosos ataques especulativos contra a acção BCP, afundando a cotação em cada "raid" consumado.

Neste crime não há inocentes. Uns prepararam a destruição, outros ajudaram, outros, sabendo do que se passava, apadrinharam. Mas chame-se, também, a terreiro os que não souberam exercer as responsabilidades assumidas e agravaram a destruição com uma passividade que não pode ficar sem registo. Em 2008, os accionistas elegeram, em Janeiro, um Conselho de Administração Executivo e, em Maio, um Conselho Geral e de Supervisão, povoado de independentes avençados, totalmente desconhecedores da história e da vida do BCP. Porque desconhecem o básico, comportam-se como forasteiros de visita a um grande banco, com prémio excessivo para o alheamento que exibem.

Em todo o caso, CGS e CAE são os dois órgãos de administração do BCP, previstos no modelo dualista, eleitos para administrarem, mas que nunca administraram. Pecaram por inacção, omissão e passividade inadmissíveis. Cederam o comando efectivo da instituição ao presidente do Conselho de Remunerações e Previdência e ao seu advogado, que passou, também, a "perito" avençado do órgão. É esta a dupla que gere o BCP desde Maio de 2008, são estas as pessoas a quem, mais que a quaisquer outras, se deve a destruição do Banco. Foi esta a dupla que avançou com as denúncias ao Banco de Portugal, à CMVM e à Procuradoria-Geral da República, que usou a "tribuna Mário Crespo" para atacar o BCP e os seus dirigentes, que preparou e organizou o assalto. Foi esta a dupla que, consumado o domínio do Banco, se apossou do poder, subordinou o Conselho Geral e de Supervisão e condicionou o Conselho de Administração Executivo, impedindo-o de protagonizar a gestão dos negócios. Como se não bastasse, na sua cruzada cega, contra tudo e contra todos, o presidente do Conselho de Remunerações e Previdência continua a torpedear a instituição, arvorando-se em seu porta-voz e arruinando o que resta da sua reputação.

Quem devia gerir o Banco – pois que para isso foi eleito – não está isento. Não o fizeram porque não souberam ou, mais provavelmente, porque não puderam. Ao submeterem-se a quem "falou mais alto", ao deixarem-se subjugar por um único accionista e ao aceitarem servir "a causa" desse accionista e os seus interesses particulares, traíram os accionistas que os elegeram para defenderem o interesse colectivo.     

Mas não foram só a independência, a isenção, a imparcialidade e a iniciativa que estiveram ausentes na gestão de topo do BCP. Há três anos que se repetem as referências a pretensas irregularidades cometidas no BCP, BPN e BPP, colocando a instituição num alinhamento que não é o seu. A assunção não é verdadeira, e os dirigentes do BCP bem o sabem, mas é a "voz pública" – autoridades, comentadores, imprensa não especializada – que está a impor a mentira, à força de tanto a repetir. E, no entanto, até hoje, não se ouviu um responsável – um só que fosse – a contrariar um alinhamento que mina a confiança de que o BCP deve gozar no mercado.

Houve denúncias, acusações e, mesmo, condenações. É um facto! Porém, no BCP, não existiram bancos virtuais, nem compra de empresas fantasmas, nem sacos azuis, nem exportação de capitais, nem fugas ao fisco, nem documentos escondidos em garagens e adegas, nem negócios em comum com accionistas, ou com clientes, nem "activos extravagantes". Faz toda a diferença! Mas, para os actuais dirigentes do BCP, ao que parece… tanto faz.

Os que têm culpas – todos os que se coligaram, os que agiram irresponsavelmente e os que, devendo agir, não agiram responsavelmente – não gostam que se diga e escreva isto. Não gostam de ver denunciada a indignidade, não gostam que se fale de uma infâmia que nada, nem ninguém, poderá apagar dos seus curricula. Por isso, sempre que alguém ousa pôr a descoberto os "telhados de vidro", reagem com nervosismo e violência, não hesitando em caluniar, ameaçar e chantagear. Temem que sejam desvendados pecados ainda desconhecidos: as vantagens particulares retiradas, enquanto preparavam o assalto ao BCP, e os benefícios a que aspiravam, com a proximidade dos novos órgãos de gestão.

Não é nova a estratégia de enterrar o passado, nem a vontade de condenar as vítimas ao silêncio. Foi assim com outra bomba atómica, a de Hiroshima. Forças poderosas – a ONU e os Governos dos EUA e do Japão – quiseram esconder a verdade e comprar o silêncio, mas as vítimas não se renderam. Responderam que não havia preço para uma devastação tão colossal: os mortos e os mutilados da explosão e os mortos dos anos seguintes. Os vivos, poderiam, até, representar os mortos, mas jamais conseguiriam fazê-lo em relação aos futuros contaminados e aos que haveriam de nascer já com certidão de óbito passada.

Um jovem "ressuscitado" dos escombros – dado como morto e com funeral feito – não deu descanso aos que pretendiam enterrar o passado. Dedicou toda a sua vida a acusar os EUA pela destruição causada, o governo do Japão pelo silêncio cúmplice e a ONU pela omissão. Passaram 65 anos. O Dr. Hida e o movimento Hibakusha, que uniu as vítimas do nuclear, continuam a responsabilizar os autores, os cúmplices e os aliados.  

No BCP, os autores da destruição, os cúmplices e os aliados fazem tudo para esconder os crimes e para silenciar as vítimas. Mas não conseguirão. Haverá sempre um "Dr. Hida" que recusa negociar e lembra as "radiações", que serão causa de uma espiral de prejuízos sem fim à vista.

Terão imaginado que podiam deitar a "bomba atómica" e escapar às radiações. Pura ingenuidade, ou, quem sabe, imperdoável irresponsabilidade. Outros acreditaram ser possível retirar vantagens pessoais dos escombros "contaminados", sem sofrerem, eles próprios, os efeitos da contaminação. Tão embriagados estavam com a miragem dos ganhos futuros que caíram no logro de subavaliar os riscos de administrar uma empresa cotada, sujeita a novos bombardeamentos, parte daqueles que tinham lançado a "bomba atómica", agora guindados à ambicionada condição de… dirigentes do BCP.

Só que, desta vez, o crime não compensou. A destruição foi longe demais, as ondas da devastação estão, ainda, a propagar-se e sem perspectiva de controlo. Accionistas e trabalhadores acabarão por descobrir os autores das perdas que são, já, irrecuperáveis. Enquanto guardarem memória das perdas sofridas, aí estarão para denunciar os que se coligaram para destruir o BCP.

Os autores e cúmplices da destruição imaginaram ganhos, mas contabilizam perdas. Sonharam com rendas crescentes, mas, afinal, os proveitos caíram sob o peso de um populismo que ajudaram a alimentar. Aspiraram aos louros dos vencedores, mas têm colado à pele o rótulo da traição, depois de terem abusado da fórmula da amizade cínica. Deslumbraram-se com a visibilidade do exercício do mando, mas descobriram que, afinal, estavam prisioneiros das cumplicidades que aceitaram. Os eleitos prisioneiros dos que congeminaram e organizaram a eleição, os organizadores prisioneiros de quem tem o poder de decidir sobre a reestruturação dos financiamentos em curso e sobre o reforço de garantias.

Uns e outros estão condenados a carregar o peso da indignidade. Podem esconder a face, mas não conseguirão encobrir a verdade, porque a verdade também não prescreve. Gostem ou não, os réus terão de responder por um crime que não prescreve: o crime da consciência. Porque as vítimas não se renderam, hoje, é todo o país que reconhece a verdade: o BCP foi concebido com amor, atacado com ódio e destruído pela incompetência.

 

 

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